quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Histórias de mães, pais e filhos que, mesmo em casos arriscados, não hesitaram em doar um órgão ao parente que precisava de transplante para conseguir viver


Das três irmãs que precisavam de um rim para sobreviver, Anna Paula Reinelt Marques, de 29 anos, foi a escolhida pelas outras duas para receber o órgão da mãe. A decisão não foi fácil. “Anna estava bastante debilitada, por isso as irmãs acharam melhor que ela recebesse o transplante primeiro. Foram 5 anos na fila de espera. O médico me pedia para doar, mas eu não tinha como escolher”, relata a mãe, Izilda Cristina Reinelt, de 55 anos. As três filhas sofrem de uma doença rara chamada glomeruloesclerose focal, uma síndrome genética que faz com que a pessoa perca as funções renais com o passar do tempo. “Só 40 pessoas no mundo têm essa doença”, diz Anna. Izilda conta que, desde que eram bebês, as meninas apresentavam alguns problemas de saúde, mas nenhum médico dava o diagnóstico correto.  
Na adolescência, porém, a doença foi detectada e elas começaram a fazer hemodiálise (tratamento que consiste no uso de uma máquina para suprir as funções do rim). Começava, então, o tormento de uma rotina de 4 horas conectadas às máquinas três vezes por semana. “Perdíamos o dia inteiro, fora a dor de cabeça, o enjoo, vômitos e a restrição alimentar. Não podíamos beber quase nada. Foram anos muito difíceis”, relembra Anna.

Depois dela ter feito a cirurgia e recebido o rim da mãe, no mesmo ano de 2005 as outras duas irmãs também acabaram ganhando rins novos de outros doadores. O transplante de rim é o mais realizado no País, de acordo com a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO). Uma recebeu do pai e a outra de uma prima distante. Depois de tamanha luta pela vida a família fundou a organização não-governamental “Doe vida”, cujo objetivo é promover a conscientização sobre a importância da doação e do transplante de órgãos. A história com final feliz das três irmãs que, assim como os doadores, hoje levam uma vida normal, faz parte dos cerca de 1.757 casos de doações de fígados e rins entre familiares realizados em 2005.

No ano passado, também contando as doações de cônjuges, o número de transplantes entre parentes ficou praticamente igual ao de 4 anos antes: 1.727 – o equivalente a 31% do total de transplantes envolvendo esses dois órgãos registrados no País em 2009, que foi de 5.581 (veja a evolução no número de transplantes nos últimos 5 anos. Para doar um órgão em vida a pessoa tem que obedecer algumas regras, tanto de saúde quanto legais. “Se não for parente, tem que ter uma autorização judicial para poder doar. Isso é necessário para evitar a possibilidade de algum tipo de troca, uma situação onde doador e receptor teriam um acordo com benefícios sem que outras pessoas soubessem”, explica o médico-cirurgião Alfredo Fiorelli, membro da ABTO.

Nos casos de família, a doação está automaticamente permitida. São histórias motivadas por amor, como a do empresário Sidnei Nehme, que recebeu dois órgãos do filho há 12 anos, na primeira cirurgia de doação dupla bem-sucedida entre vivos do mundo (leia a história completa na página 16). Foi assim também no caso da empresária Regina Miranda, de 40 anos, que doou parte do fígado à filha Sofia, hoje com 9 anos, quando ela ainda era um bebê. A  menina nasceu com displasia das vias biliares, que não permite que o corpo drene as toxinas. “Quando ela tinha apenas 70 dias de vida nós já tínhamos o diagnóstico. Logo depois, ela fez uma cirurgia que não teve sucesso.

Então, sabíamos que a solução seria mesmo o transplante de fígado. Os cuidados eram extremos: não pude amamentá-la, pois ela não podia ingerir nada que tivesse gordura. Ao mesmo tempo ela tinha que atingir 10 quilos para poder receber o órgão. Foi um período muito difícil”, lembra Regina.

Na hora certa, em uma cirurgia que durou 14 horas, a mãe doou um terço do fígado para Sofia. “No papel de mãe é uma decisão simples. A maioria na minha posição faria o mesmo”, afirma. Em 3 dias a filha estava ótima. Regina também teve alta, mas conta que os dias seguintes à cirurgia são complicados também para o doador. “Emagreci, tive dores e não conseguia comer direito. Em 3 meses, porém, meu fígado se regenerou e eu já estava completamente boa. Até voltei a praticar corrida”, relata.

Segundo o médico-cirurgião Tércio Genzini, que pertence ao Hepato, grupo especializado em estudos, tratamentos e transplantes de fígado e outros órgãos do aparelho digestivo, o risco de morte em uma cirurgia de transplante de fígado é de 1%, enquanto que na de rim é de 0,01%.

“Embora complexa, a fazemos há bastante tempo e, por isso, a operação de fígado é tão segura. Já a de rim é mais simples, feita com um corte muito pequeno”, explica.

Ele destaca que a compatibilidade entre doadores de fígado é mais fácil de ser conseguida que a de rim, pois basta pertencer ao mesmo grupo sanguíneo. Já para a doação de rim é preciso fazer exames de mapeamento genético com o objetivo de conseguir uma compatibilidade imunológica, evitando a rejeição do novo órgão por parte do organismo que o recebeu.

Genzini ressalta que existem outros órgãos que podem ser doados em vida, mas seus transplantes são bem mais raros e complicados. Segundo ele, quem doa parte do pâncreas, por exemplo, corre o risco de se tornar diabético depois da cirurgia.

Parte do pulmão também pode ser doada em vida, mas também são poucos os casos de transplantes realizados no Brasil.

Dados da ABTO mostram que, em 10 anos, ocorreram apenas 24 cirurgias de transplante de pulmão entre vivos no País. No exterior, pratica-se ainda a doação de parte do intestino.
Já a medula é um tecido simples de ser doado entre vivos.

“A retirada do líquido é feita com sedação. A pessoa que doa não sente desconforto na coleta e o líquido não faz falta ao organismo, pois ele se multiplica”, explica o médico do Hepato.

Apesar de ainda não ser tão comum como a de rim, em 1 década o crescimento da doação de medula cresceu 158% no Brasil e chegou a 1.435 doações no ano passado, segundo dados da ABTO.

Fonte Revista Veja abril 2010
Colaboração: Lais do Rosário 8º semestre- Faculdade Vasco da Gama- Curso de Serviço Social